Meu amigo Pedro
Tema: Comportamento - Autoria: PJ Pereira
Meu amigo Pedro me ligou. Mentira, falamos pelo Messenger. Ele esta vindo nos visitar na Califórnia e já esta superempolgado porque viu na internet que o dinheiro que guardou dá para comprar um monte de coisas na Target. Mas peraí... o Pedro tem apenas 6 anos!
Então me lembrei de uma conversa que tive com o Scott Donatton, editor da Advertising Age, uns meses atrás. E lembrei só porque eu mesmo nunca tinha ouvido falar na Target antes de mudar para cá, e o Pedro não só conhece a marca, como sabe que tem um monte de coisas para ele. Sabe o endereço do site e sabe até o que vai comprar. E falei que o site está todo em inglês? Como ele conseguiu navegar?
Mas, voltando à conversa com o Scott, ele dizia que uma de suas maiores curiosidades atualmente era saber como a criançada reagiria ao tipo de propaganda que se faz hoje em dia, porque as diferenças já não são mais o que é on ou off-line, above ou below the line. Para a meninada, a distinção nunca existiu, eles usam o Google para fazer dever de casa e aprendem a ler inglês na marra, sem ninguém ensinar. O que prolongou nosso papo foi a curiosidade sociológica de imaginar a dinâmica de uma família na qual a criança sabe muito mais do que os pais.
Eu me lembro, por exemplo, do meu pai me ensinando a lutar judo — ele era faixa preta — e futebol, o qual depois eu descobri que ele nunca soube jogar. Mas naquela época eu perdia todas, e achava meu pai o herói dos heróis, o que sempre foi muito saudável para a minha educação. E eu, que estou esperando meu primeiro filho e ganhei minha primeira conta em que a relação entre crianças e seus pais será realmente importante para meu trabalho, comecei a pirar. E agora? O que fazer quando o filho pode pesquisar a vida do pai na web? E pode dar uma surra nele no videogame? Como ficam os heróis domésticos quando suas identidades secretas ficam expostas? E como ficam as decisões na família? Quem influencia quem? Quem decide o quê? Quem protege quem?
Será que em alguns anos meu filho vai achar esse artigo no "Google History" (sei lá o que eles vão inventar nos próximos anos) e vai querer me explicar as diferenças? Será que o próprio fato de estar escrevendo esse artigo já é uma demonstração de que virei passado? Porque me disseram que quando o seu filho nasce você já está preparando sua obsolescência. Alguém poderia trazer de volta o paste-up?
Fonte: Meio e Mensagem Autoria:PJ PEREIRA Diretor executivo de criação da AKQA San Francisco pj.pereira@akqa.com
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