Exército suíço acha um alvo: executivos
Tema: Treinamento - Autoria: Edward Taylor
Sem conflitos desde 1798, militares agora treinam gestores em situações extremas.
LUCERNA, Suíça - O Exército suíço é famoso por ter inventado o canivete, fornecer seguranças para o papa e por não marchar contra um inimigo desde 1798.
Isso deixa os oficiais desta nação neutra sem nada para fazer com sua expertise militar. Então, resolveram mirar a sala da diretoria.
Em fins do ano passado, o exército começou a fazer propaganda de um curso de quatro dias de administração para empresas. Por uma taxa de USS 1.245, oficiais militares suíços ensinam executivos sobre liderança e tomada de decisões. Os professores usam uniformes de camuflagem e o curso acontece numa base militar perto do pictórico Lago Lucerna.
"É mais barato do que ir para Harvard", diz o general de divisão Ulrich Zwygart, que começou a dar aulas no programa um ano atrás.
Na verdade, o curso "Transferência de Liderança" parece mais um episódio de Ato Limite. Executivos ficam num bunker militar - escolhido pelo exército por sua atmosfera de luta para sobreviver e ausência de sinais de telefones celulares. Os participantes recebem casos teóricos para resolver, com base em situações militares históricas. Enquanto buscam respostas, eles passam quase 36 horas sem dormir. Mas podem tomar refrigerantes e comer chocolates suíços - a exemplo da alimentação do exército -para ficar acordados.
Os dois instrutores de período integral são parte do Exército suíço, quase que totalmente formado por soldados da reserva. O exército sempre tem cerca de 140.000 soldados na reserva. Embora tenha participado em missões de paz, como nos Bálcãs, o Exército suíço não participa de um combate tradicional desde as Guerras Napoleônicas. Uma tropa da Guarda Suíça, usando armadura e capacetes com uma pena vermelha, ainda policiam o Vaticano. Esse trabalho é deles desde 1506, quando o papa Júlio II contratou mercenários suíços.
Muito embora o país não precise de muitos soldados, a Suíça tem mantido sua política histórica de recrutamento. Todo suíço maior de 18 anos faz um treinamento básico de 18 semanas e cursos de atualização mais tarde.
Mas o exército tem tido de provar sua importância. Uma organização chamada Grupo por uma Suíça sem Exército tem pressionado para sua completa extinção. Em 1989, o grupo ajudou na encenação de um plebiscito sobre essa ideia, e ela conquistou 35% dos eleitores.
Como reação, entre outras coisas, o exército resolveu mostrar que seu regime de treinamento é aplicável à vida civil e até mesmo empresarial.
O general Zwygart, diretor da Faculdade das Forças Armadas Suíças, sondou executivos suíços sobre suas necessidades de treinamento. A partir dessas conversas, o exército montou seu curso de quatro dias.
Numa recente manhã de terça-feira, na sede da faculdade em Lucerna, cinco homens e uma mulher de empresas como a Siemens AG e um banco suíço apresentaram-se para servir. Foram recebidos pelo coronel Beat Muller, de 53 anos.
Muller explicou que ninguém ia receber o currículo. "Assim vocês não sabem o que esperar."
A primeira lição foram os cinco passos do Exército suíço para resolver um problema: iniciação, orientação, desenvolvimento de conceito, desenvolvimento de plano e emissão de ordens para executar o plano. Iniciação, por exemplo, requer identificar problemas e classificá-los de acordo com sua premência, explicou o coronel.
A turma remou num bote por uma hora através do Lago Lucerna até um precipício, ao pé do qual ficava a entrada de um bunker do exército que deixou de ser "top secret" em 1995.
Ali, o coronel apresentou uma tarefa: organizar uma missão de resgate para um avião sequestrado. O grupo passou horas trabalhando com os cinco passos do exército para chegar a um plano.
Perto das 3 da manhã, um estudante, Erwin Lander, um especialista em informática de um banco sediado em Zurique, sugeriu pousar um avião num aeroporto e lançar um ataque a partir da pista de pouso. Mas outro estudante contestou, dizendo que os mapas do aeroporto não eram bons o bastante para saber se era seguro pousar. "Desculpe, mas não vou pôr essa missão em risco porque não temos mapas detalhados", disse Daniel Fluck, que trabalha para o governo suíço.
"Suponhamos que dá para pousar", respondeu Lander.
O coronel Muller interveio: "Estamos perdendo o objetivo de vista e entrando numa discussão sobre detalhes irrelevantes. Esse é um problema clássico de pessoas que estão cansadas e sob pressão."
A turma concordou em seguir o plano de Lander. Então, Muller deixou todo mundo ir dormir.
Na manhã seguinte, o coronel explicou que o exercício fora uma recriação da "Operação Trovão", em julho de 1976, quando forças israelenses pousaram no aeroporto de Entebe e libertaram reféns.
E como isso ajuda na empresa? Lander, que fez o curso por sugestão de seu chefe, não estava completamente seguro de como isso seria aplicável em seu trabalho num banco suíço. Ainda assim, depois do curso, ele preparou um PowerPoint para seus funcionários sobre a importância de analisar problemas como forma de resolvê-los.
Stefan Wesenauer, um gerente da gigante alemã de engenharia Siemens, diz: "A metodologia não é ruim, mas não dá para apli¬car no cotidiano do trabalho." E acrescenta: "Seria melhor participar com minha própria equipe. Assim você pode aprender mais sobre seus funcionários."
Fonte: THE WALL STREET JOURNAL Data: 26 de novembro de 2006 O Estado de S. Paulo Autoria: Edward Taylor
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